Quarta-feira, Maio 4

Madalena

Hoje Madalena carrega no corpo o peso do mundo inteiro.
Hoje o quarto de Madalena parece o céu, com direito a som dos anjos.
Hoje a cama de Madalena se faz mais forte, e abraça a dona, carinho puro, porque sabe, sem precisar palavras, que hoje Madalena carrega no corpo o peso do mundo inteiro.
- Por que, Madalena?
- Porque, assim sendo, é...
E sonha.

Segunda-feira, Abril 18

Defeitos

Ela é uma pessoa difícil de lidar. Às vezes até um pouco pessimista. Ela queima o arroz, odeia lavar a louça, e não escuta música clássica. Foge da salada e adora fast food. Mata a academia mas não mata uma barata! Não sabe economizar dinheiro e nem palavras. Teimosa, bipolar, vingativa. Dificilmente aceita alguma opinião e facilmente se irrita. Ela tem ciúmes, tem inseguranças, tem manias. Ela tem todos esse defeitos que compensam com sua principal característica: ela tem um bom coração.



Terça-feira, Março 15

da ausência

Carolina hoje fará uma comidinha em casa para comemorações. Thaís e Carolina são velhas conhecidas e um dia foram, quem sabe?!, até amigas.

Ah, mas o tempo... O tempo é o Grande Saturno, jardineiro, comandante das mudaças das estações e daquilo que frutifica. Nisso Thaís acredita! mas acontece também que Saturno é mais conhecido por ser o devorador dos próprios filhos (o que dizer, então, de probres mortais?!), destruidor, dono das rédeas do envelhecimento e da morte. Inclemente. Com ele ninguém pode! 

A ausência sentida/vivida por Thaís há tempos (e esfregada na cara, há pouco, como realidade) fez com o tempo se transformasse no bicho mais assustador de que se tem notícia.

E, hoje, um pouco triste, Thaís se dissolve em palavras e congratula Carolina, mas apenas em pensamentos.

Segunda-feira, Setembro 20

sem título

Em tempos assim difíceis, a memória insiste em resgastar horas bobas, aquelas nas quais o barulho das ondas do mar fala mais alto e calmo.
Mas, além mar... tanta miséria insone dorme nos olhos de uma dona cansada. E o que é resgatado deixa de ser barulho bom de mar; ouve-se somente a tempestade, vulgo "silêncio da solidão".
E há tanto tempo Catharina não tocava nessa ferida que havia mesmo se esquecido de quão dolorosa ela era.
-
manuscrito em algum canto dos idos de 2009

Quinta-feira, Setembro 16

aqueles dois*

Marinna é câncer. E muito embora seja esse um detalhe ridículo aos olhos de Ricardo - "não boto muita fé nisso de signos" - hoje a moça se mostrou demais. A ponto de assumir fraquezas e riscos de rejeição.

Marinna é ciúme; não mais velado. Mostrado, gritado, descarado. Gargalhado, porque Ricardo não sabia o que era alguém assim. (Não sabia! a menina sabe que ele é especial. a menina sabe que, muito mais do que pensa, ele desperta interesses vários - e em várias... Tanto a menina sabe que evitou, dias atrás, maiores propagandas do novo namorado pr'aquela tal amiga loura nada burra...)


Marinna sabe que caminhando encontrou alguém que pensa como ela e, por bem, para sempre ali, nele, em cada pedaço de corpo e cheiro e beijo, achou por bem (porque assim e só assim seria feliz) estacionar.


"Quereria, meu amor, poder ser tudo o que você pensa que eu sou. Sou fraca, pequena, não sou nada simpática e nem um pouco 'gente boa'" - pensa Marinna. Mas pensa com o coração quieto, sabedor de que lá no outro canto da cidade dorme quentinho o dono dos seus pensamentos, do seu coração, dos seus desejos, do seu corpo, e futuramente da sua alma.

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*título descaradamente copiado de um conto do incrível Caio F. Abreu.